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Foto Dona Luizinha, quando jovem, acervo da família (cpdoc) |
Dona Luizinha – a “mãe dos Aranha”!
Cidadã do mundo - caridosa e prestativa, reconhecida pelo Papa.
Prof.º Paulo Santos
Toda
vez que passava pela Rua Luizinha Aranha, conhecida via de Itaqui/RS, sentido
Norte/Sul, atiçava-me a curiosidade – quem era essa senhora? Que motivos
elencaram a comunidade a homenagear com seu nome a referida rua?
Numa
busca imediata, pouco encontrei. Assim, entre curioso e perplexo frente ao
descaso com as informações históricas de nossa terra, fui atrás de referências
mais. Inteirei-me dos endereços possíveis, vasculhei fontes e fontes e
debrucei-me, de forma incessante, no rastro de informações novas. Tanto que
elas começaram a surgir. Os resultados surpreenderam-me enquanto pesquisador –
Dona Luizinha Aranha foi, de fato, uma personalidade muito além de seu tempo.
Luiza
de Freitas Valle, conhecida futuramente como Dona Luizinha Aranha, nasceu na
cidade de Alegrete, RS, vivendo muito tempo em Itaqui, RS, depois Rio de
Janeiro. Era, na verdade, uma cidadã do mundo.
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Foto D. Luzinha - constante no MyHeritage |
Da
província de São Paulo, especificamente da localidade de São Sebastião, veio
seu pai, Manuel de Freitas Valle casado com Luiza Jacques de Freitas Valle,
primos-irmãos, para o Rio Grande do Sul, fixando-se em Alegrete. Ali nascia a 2
de fevereiro de 1872, Luiza, que viria a casar com Euclides Egydio de Sousa
Aranha, de São Paulo. Casaram em Alegrete, dia 12 de outubro de 1887. Luiza
teria nesta data apenas 15 anos.
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Cel. Euclides Aranha - jovem ainda - Foto retirada do MyHeritage |
Os
jornais da Hemeroteca Digital, um link da Biblioteca Nacional, forneceram-nos
dezenas de pistas valiosas que ajudaram a elucidar a grande história de vida de
Dona Luizinha Aranha.
Por
ocasião de seu falecimento, em 1948, as informações davam conta de que o casal
tivera 21 filhos, dos quais restavam vivos apenas nove.
Seu
pai viera de São Paulo antes de 1877, para Alegrete, RS, com ela e outra filha. Casou em 1887 e por volta de 1894, não se sabe bem se estava em Alegrete ou Itaqui, emigrados na Argentina por conta da Federalista.. Talvez sendo o período de aquisição da secular Estância Alto Uruguai. Propriedade
essa que em 1865, quando da invasão paraguaia ao Rio Grande do Sul, pertencia a
Fortunato Assumpção. Há informações de que Euclides teria recebido a estância
de herança. Entretanto não conseguimos localizar de quem.
Em
1893, junto com o esposo, esteve exilada na Argentina por conta dos efeitos da
Revolução Federalista, a “Revolução da Degola”, um dos mais sangrentos
episódios bélicos de natureza política do estado. Regressa em 1894, ano que
nasce o filho, futuro chanceler e presidente da ONU, ministro de Estado –
Osvaldo Aranha.
Não
se sabe com exatidão o tempo que Dona Luizinha permaneceu com a família em
Itaqui. Acredita-se que a partir da ascensão de Osvaldo Aranha no cenário
político nacional, ela teria se mudado para a capital da República, Rio de
Janeiro. Talvez próximo a 1920, ou mais.
Seu
nome aparece com destaque na imprensa nacional, principalmente por ser a mãe do estadista Osvaldo Aranha -
mais ainda – pelo seu desmedido e notável trabalho social e caritativo. Nos jornais
do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre sobejam notas sobre importantes
trabalhos liderados e influenciados por Dona Luizinha.
Em
1914 consta em notícia do Correio do Povo (RS), que Dona Luizinha Aranha teria
fundado em Itaqui, RS, uma vila proletária. Que vila seria essa?
Ano
de 1923 – Revolução. Dona Luiza e o Coronel Euclides Aranha tiveram oito de
seus filhos engajados na luta, juntamente com o pai. Além disso, a distinta
senhora deu assistência aos feridos, sem distinção de cores partidárias.
Em
1930 organizou um serviço destinado a socorrer e amparar os combatentes e
familiares desse movimento, ou seja, a Revolução de 30.
Em
1931 aceitou a presidência da Cruzada Feminina Deus e Paz, no Rio Grande do
Sul, que defendia os princípios básicos da família brasileira. Nesse período,
uma das vitórias da cruzada foi o decreto presidencial instituindo o ensino
religioso nas escolas. Bateu-se contra a lei do divórcio, reunindo mais de duzentas
mil assinaturas, num memorial remetido ao Chefe de Governo.
Em
1934 organizou um manifesto, com 250 mil assinaturas, para que na Constituição
Federal fossem aceitas as emendas de caráter religioso. Decorrente desse
trabalho na defesa das ideias católicas, o Papa Pio XII concedeu-lhe a Cruz “Pro-Eclesia
et Pontifice”, considerado um dos mais altos diplomas da Igreja. Estava também
envolvida na Campanha do Bom Cinema. Neste mesmo ano, lidera um outro memorial
assinado por mais de 14 mil senhoras.
Ano
de 1934 – um dos mais relevantes serviços de Dona Luiza foi a criação do “Amparo
Santa Cruz”, no bairro Belém Novo, em Porto Alegre, levantado para os filhos
sãos dos leprosos. Para construção e levantamento da pedra fundamental dessa
sede, em 1938, fez campanhas poderosas, conseguindo muito dinheiro. E mais – os
jornais acentuam que Dona Luiza gastou a maior parte de sua fortuna ali. O local
oferecia atendimento a cem crianças que recebiam alimentação e conforto moral.
Ano
de 1940 – foi conferida a Ordem Militar de São Lázaro de Jerusalém à Dona Luiza
Aranha pelos profícuos trabalhos comunitários e beneméritos.
Em
1942, Dona Luiza ajuda a liderar a Campanha Nacional de Aviação, sendo
homenageada como madrinha do avião “Brigadeiro Luiz Antonio “, doado por uma
empresa de São Paulo ao Aeroclube de Cruz Alta, RS.
Uma
curiosidade: no ano de 1953, quando Dona Luiza não mais existia, os jornais do
Rio de Janeiro noticiavam que Luizinha Aranha, filha de Ciro Aranha, era eleita
Miss Vasco da Gama. Era uma neta destacando-se no cenário carioca, homenageando
a grande avó.
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Foto Dona Luiza, esposo e alguns filhos, por volta de 1900(acervo da família-cpdoc) |
Alguns
relatos orais dão conta de que o local “Mata-Fome”, próximo aos campos da
Estância Alto Uruguai, dos Aranha, teria este nome pelo motivo de que Dona Luizinha
Aranha costumava deixar nos mourões das cercas vasilhas com comidas para os
transeuntes que passavam pelo local com fome.
Mesmo
com uma extensa filiação, parece que Dona Luizinha, como era mais conhecida,
ainda tinha alguns filhos que adotara e ajudara por muito tempo. No Parque
Comendador Firmino Fernandes Lima – o Parcão, há um bebedouro na esquina da rua
Paschoal Minoggio com XV de Novembro, cuja construção seria atribuída à mãe dos
Aranha. Com pena dos animais, teria doado o referido bebedouro para tal fim. Hoje
ele está um pouco descaracterizado.
O
Diário da Noite, de São Paulo, edição n.º 87205, de 1948, página 1, trazia a
seguinte e dolorosa notícia:
Falece
a “Mãe dos Aranha”. Gastou sua fortuna em obras de caridade. Protegeu os pobres
e sempre ajudou a construir hospitais, escolas e igrejas. Hoje o sepultamento
da Sr.ª Luiza Freitas Valle Aranha no Cemitério de São João Batista. Rio, 1. Perdeu
ontem o Brasil uma das suas mais ilustres matronas, digna por todos os títulos
da administração, não só da Sociedade em que viveu mas também a nação inteira,
aquela que no Rio Grande, em São Paulo, no Rio e no próprio norte era chamada
carinhosamente a “mãe dos Aranha”
Itaqui resgatou a memória desta exemplar mulher, alterando o nome da Rua Aristides Lobo, em 21/12/1959, para Dona Luiza
Aranha, onze anos após sua morte. Com uma atuação tão expressiva no cenário nacional, de entrega,
devotamento, desprendimento e luta por causas sociais relevantes, Dona Luizinha
Aranha merecia isso e muito mais.
Entretanto,
seu nome parece incrustado muito fortemente na memória popular. Talvez a mais
relevante, visto que ela foi gente do povo, socorrendo e assistindo. Um espírito
de alta transcendência que evolou pelo espaço itaquiense, transcendendo para
voos maiores ao longo de sua evolução enquanto ser de luz suprema. A eternidade,
com certeza, lhe fará justiça.
Quem tiver alguma informação, de base oral ou documental, sobre esta grande personagem, acessem este blog ou mande para nosso email ao lado, que publicaremos, indicando a fonte.
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