Dr.º
Tito Corrêa Lopes – o cara!
Um
gestor além do seu tempo
Prof.º
Paulo Santos
Apropriando-me
de uma expressão-clichê de base coloquial moderna, diríamos que Tito Corrêa
Lopes era um homem além de seu tempo. Substanciando esse concepção, avanço um
pouco mais. Na definição do dialeto contemporâneo jovem – Tito “era o cara!!”.
Sua visão estratégica e ações administrativas comprovam isso. Sem dúvida, foi
um dos mais iluminados gestores do município ao longo dos 162 anos de
emancipação política.
Tito
Corrêa Lopes nasceu em Itaqui, em 1876, casando em 1899, se as fontes estiverem
corretas, com Antonieta Lara Palmeiro. O casal gerou uma numerosa prole formada
por Iracema, Celso, Plínio, Antônia, Aécio, Heloísa, Cezar, Luiz, Zaida, Cloé,
Clotilde e Tito Bruno.
Em
1853 concluiu o curso de Engenharia Civil na Escola Politécnica do Rio de
Janeiro.
Sendo
um membro de destaque do Partido Republicano, ascendeu ao poder intendencial em
1904, com mandato até 1908. Foi guindado ao segundo período, como intendente de
Itaqui até o ano de 1912. Primeiramente, seu vice era o Coronel Pedro Dinarte
Pinto e, no segundo, o Coronel Euclides Egydio de Sousa Aranha.
Como
chefe do Executivo municipal, o tino administrativo era impressionante. Estava,
como foi dito, à frente de sua realidade. Pensava incluir Itaqui na era da
modernidade. Suas concepções e atos assim o demonstram. Em 7 de setembro de
1909 inaugura o majestoso Mercado público, uma obra sem precedentes na época.
Será que esse gigante suportaria a produção econômica de Itaqui? Parece que não!
Foi, inclusive, criticado pelo Dr.º Hemetério José Velloso da Silveira.
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Pórtico de entrada do Mercado Público - 1909 imagem itaquirs.com.br |
Tito
pensava no “rio de dinheiro” que brotaria com a instalação do Saladeiro São
Felipe, dos ingleses Dickinson em 1910. O ilustre administrador pugnava: “esse
estabelecimento de proporções sem igual no Estado, marcará uma nova era para
nossos criadores até aqui sujeitos às especulações saladeristas.” E isso viria
a se confirmar.
Antes
do advento do Saladeiro, Itaqui possuía, em 1909, 300 mil cabeças de gado e
mais de 80 mil ovelhas. Com a instalação desse megainvestimento, o abate de
animais duplicou fazendo com que a maior parte dos fazendeiros locais vendesse
a produção para o Saladeiro, ainda que numerosas tropas vindas de outras
cidades e até países vizinhos aportassem para abate.
Itaqui
vive o apogeu de seu desenvolvimento. Organiza-se uma linha da estação
ferroviária para São Borja. A navegação no rio Uruguai e Ibicuí, subvencionada
pelo governo federal fluía normalmente, dando o escoamento da produção primária
do município. Objetivando organizar a estrutura do município para absorver
tamanha demanda de serviços e infraestrutura, nesse período é criado o Cais do
Porto, um dos mais organizados da fronteira naqueles tempos.
Com
a receita em franca projeção, Tito Corrêa Lopes dá asas ao projeto de
urbanização da cidade, construindo e delimitando calçadas, calçando algumas
ruas e fomentando a construção de prédios suntuosos no centro da cidade que até
hoje alguns estão de pé, atestando o poderio econômico, a sutileza artística
dos proprietários e a qualidade dos construtores locais, com ênfase para o
conceituado arquiteto Pascoal Minoggio.
Não
contente com os ultrapassados lampiões a hidrocarbureto, Tito sonhava com a
instalação da energia elétrica, gerando um progresso sem par para os munícipes.
Ainda, mesmo tendo uma caixa d’água no Mercado Público, pensava alto – queria
que esta fosse canalizada para a casa de alguns moradores. E mais, achava
urgente a construção de uma rede de esgotos. E olhe, isso eram projeções de
1909 – um século atrás.
Itaqui
estava saindo de um período de agitações políticas, de efervescências e contendas
partidárias, num tempo de exacerbação dos ânimos, com mortes, rixas,
emboscadas, crimes encomendados – resquícios da primeira República. Emoções
serenadas, havia a necessidade de se construir uma nova unidade
político-administrativa, Itaqui precisava disso. O intendente Tito Corrêa Lopes
foi, a meu juízo, o artífice dessa mudança.
Grandes
fazendeiros destacavam-se no cenário municipal, alguns sendo considerados, até
mesmo, como dos mais expressivos do Estado, como por exemplo Ismael Floriano
Machado Fagundes, com mais de três fazendas e
criador de mais de 30 mil reses. Nessa esteira, fervilhava o comércio
fluvial através do intercâmbio comercial entre os países da Bacia do Prata. Via
rio Uruguai, migravam para Cuba e Europa produtos da região. Do Velho Mundo
vinham as novidades da moda das grandes metrópoles, enfeitando a casa das
famílias abastadas da elite itaquiense. De outro lado, as camadas mais
inferiorizadas socialmente tinham acesso a trabalho com as inúmeras formas de
criação de empresas e serviços no município.
Atento
a esse crescente progresso, o Dr..º Tito Corrêa Lopes pega carona no cavalo da
história e apeia num contemporâneo tempo envolto em aura de modernidade.
Ele
mesmo previa: “O que está feito, porém, não basta.” Ele, de fato, encarou o
futuro.
Tito
construiu uma história de envolvimento na política rio-grandense, sendo
importante divulgador da doutrina positivista. Em 1892 assina, junto com
importantes lideranças, um manifesto do Clube Republicano. No ano seguinte
eclodiria a famigerada Revolução Federalista.
Depois
de concluído seu período como intendente, Tito assume a função de engenheiro e
é chamado para outras funções. Em 1915 é nomeado para fiscalização do Porto do
Rio de Janeiro, como engenheiro ajudante.
Em
1922 é designado como chefe do Porto de Santa Catarina. Nesse período,
envolve-se numa polêmica. Um jornalista, de nome Crispin Mira, de Santa
Catarina, denunciava possíveis irregularidades de Tito na administração da
Comissão de Melhoramentos do Porto daquele estado. Ao saber das denúncias, Tito
desafia o jornalista para um duelo. Este aceita, entretanto para “duelo à
pena”. O jornalista é assassinado e Tito é acusado, tendo em vista que seu filho Aécio Lopes invade o jornal e luta com Crispin, disparando um tiro no mesmo, que faleceria dias após. Os jornais da época
noticiam que houve processo e o mesmo teria sido absolvido. Tanto que Aécio Lopes, pouco tempo depois énomeado subinspetor dos portos e rios, em Santa Catarina e, em 1930, casa com a filha do governador de Santa Catarina.
Parece que Tito tinha bons relacionamentos politicos e mantém-se no cargo, apenas passado um ano é designado para outra unidade da confederação.
Após
o incidente, é deslocado para outras unidades. Sofre com sérios problemas de
saúde, tanto que em 1929, na Câmara, Flores da Cunha discursava enfatizando que
o governo mandou remover o engenheiro Tito Corrêa Lopes, do porto de Rio Grande
para o de Ilhéus, quando este “estava entrevado, no fundo de uma cama, quase em
extremis.”
Foi
um dos propagandistas da República e fervoroso agente político, competente
profissional da engenharia, prestando serviços importantes em várias
localidades. Seu tempo findou no dia 15 de junho de 1931, no Rio de Janeiro. É
lembrado na cidade de Itaqui através do nome de uma destacada escola estadual e
uma importante rua na entrada da cidade. Talvez seja pouco para o muito que
este intendente fez pela cidade.
Entretanto,
o trem da história sempre consegue entrar nos trilhos de forma correta. No fim
da linha haverá pessoas para saudar. Muito mais do que isso – reverenciar quem
soube viajar pelo tempo com propriedade. Tito Corrêa Lopes, a meu ver, foi um
exemplo clássico dessa competência. Foi “o cara!”.
A esposa do Dr.º Tito Corrêa Lopes, Antonieta Lara Palmeiro era trineta de Floriano Machado Fagundes, um de meus tetravós materno-paternos.
ResponderExcluirExcelente texto, quanto mais nos aprofundamos na história de ITAQUI, percebemos a grandeza dos homens e mulheres que a criaram. Profº Paulo Santos, queremos mais textos como esse.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirSão meus parentes bela homenagem a Tito, porém tem algumas inconsistências parentais no texto.
ResponderExcluirSerá um prazer corrigir estas inconsistências, talvez até porque as fontes fossem incompletas. Mande para nosso email as correções necessárias que acrescentaremos ao texto. Grato.
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