DR.º OTÁVIO D’ ÁVILA
Tempos de coronéis, imunidades,
winchester carregadas e tocaia na estrada do Passo do Silvestre!
Prof.º Paulo Santos
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| Dr.º Otávio d' Ávila - Imagem Blog Sangue Palmeiro |
Um
dos mais emblemáticos episódios da história pregressa de Itaqui foi, sem sombra
de dúvida, o assassinato do intendente Dr. Otávio d’ Ávila, em 22 de julho de
1920, em Itaqui.
Dr.º
Otávio d’ Ávila, advogado, intendente, deputado provincial, filho do célebre
senador do Império, Conselheiro Henrique Francisco d’ Ávila e de Maria Faustina
Gonçalves Netto, era figura de destaque no cenário estadual. Descendia, por um
lado da genealogia de Bento Gonçalves e Antonio de Sousa Netto, além do lado
paterno pelos Ávila.
Casou
com a itaquiense Onfale Palmeiro, em 1905, vindo a residir neste município. Aqui
advogou e transitou na área jurídica, chegando a ser juiz da comarca, de 1904 a
1917.
Foi
eleito intendente de Itaqui pelo período de 1916 a 1920, tendo como vice, o
coronel Pedro Ourique de Lacerda.
Dois
fatos notabilizam a passagem de Ávila pelo cenário itaquiense. O primeiro:
assassinato do Dr.º Bolivar Lima Barbosa, no prédio da prefeitura municipal e o
segundo: a morte do próprio intendente, em 1920.
Muitas
dessas informações são oriundas da imprensa da época, principalmente os
jornais, arquivados na Biblioteca Nacional, e disponibilizados através do
recurso da Hemeroteca Digital, acessada através da internet. Portanto, todas
elas são de domínio público. Acrescenta-se ainda os depoimentos orais dos
descendentes.
Ainda
que tenhamos um acervo muito grande de informações, evitaremos tocar em aspectos
familiares e enfocar nomes muito específicos porque descendentes de ambos os
lados existem em profusão.
É
sabido que o Dr. Ávila teve problemas com membros das famílias Barbosa e
Floriano. Motivado por desentendimentos, por exemplo, com Bolivar Pinto Barbosa
por questões advocatícias, Ávila desferiu-lhe quatro tiros á queima roupa, na
sala de audiências, que funcionava no prédio da atual Prefeitura Municipal de
Itaqui. A morte foi instantânea. Bolivar era filho de Marciano Pinto Barbosa e
Romalima Fernandes Lima, neto do Coronel Tristão Pinto Barbosa e Ephigenia
Nunes Barbosa, sobrinho do famoso Dr.º Aureliano Pinto Barbosa. Era um
destacado advogado, brilhante orador, poeta e de destacada atuação no cenário
local.
Por
ser deputado provincial e gozar de imunidade, Otávio d’ Ávila livrou-se do
flagrante, mesmo que entre as testemunhas presentes ao fato fossem, por
exemplo, um deputado estadual, um escrivão de Justiça e um oficial. Foi
orientado a retirar-se em direção a sua casa que ficava na frente do atual
prédio da família Mondadori, na rua independência. Casa esta que ficava ao lado
direito da antiga lotérica do sr. Roquinho Degrazia. Ali, segundo fontes da
época, teria vestido seu uniforme de oficial do Exército e protegido pela
imunidade do cargo de deputado estadual (na época tratado como provincial
também).
Pela
repercussão do caso, o promotor de Itaqui pediu permissão à Assembleia
Provincial para processar o dito representante. O caso rendeu “pano pra manga”! O assassinato deu-se em 8 de outubro de 1914.
Em
12 de agosto de 1915, Ávila foi julgado em Itaqui, mas não veio a condenação.
Bolivar
Barbosa era amigo de Ismar Floriano, filho do estancieiro Ismael Floriano
Machado Fagundes, um dos potentados de Itaqui, dono de três grandes estâncias,
uma delas a atual Sociedade, vendida mais tarde para Jácomo Bonapace, no
distrito dos Figueiredo. Pois Ismar era tido como arruaceiro e provocava badernas na
cidade, afrontando a polícia de Ávila. Talvez resquícios ainda da morte de seu
amigo Bolivar.
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| Ismar Floriano - Foto acervo familiar e particular do Sr.º Bernardo Belmonte Schenini |
Depois
de alguns confrontos e desatinos de Ismar, aconteceu seu assassinato em 12 de
maio de 1920. Segundo informações orais de pessoas que viveram aquele tempo, a
morte de Ismar Floriano fora ordenada pelo intendente Otávio de Ávila. É claro,
isso são relatos orais factíveis de crença.
Os
descendentes dos Floriano contam que Ismar, um jovem ainda, costumava juntar
três ou quatro parceiros e saiam pela madrugada a fazer bagunças no centro da
cidade. Com o carro de sua propriedade, ligavam o gramofone no mais alto volume
e provocavam a polícia da época. Policiamento este feito a cavalo e as armas
eram revólveres e espadas. Contam que a sede da polícia era numa casa próxima à quadra da Escola Estadual Aureliano Barbosa. Havia em parte da rua uma proteção, uma placa, ou algo assim. Ismar, de propósito, passava de carro e derrubava esta placa, irritando os policiais que saíam no seu encalço.
Por
mais de uma oportunidade, Ismar e sua turma tirotearam com os policiais
ferindo-os ou sendo ferido. Na última rodada, em determinado local da rua
Borges de Medeiros, Ismar Floriano fora ferido mortalmente por um cabo da
policia local, vindo a falecer alguns dias após. Os familiares e amigos atribuíram
a morte a mando de Àvila.
Mais
tarde, um fato vem a corroborar estas evidências – uma tocaia feita a Àvila pôs
fim à sua vida.
No
dia 22 de julho de 1920 foi organizado um passeio campestre pelo sr.º Clóvis
Fernandes Lima a uma estância, quatro léguas da cidade, pertencente a Firmino
Fernandes Lima. Participaram quatro carros totalizando 20 pessoas.
O
carro de Ávila era o terceiro. Em determinada localização da estrada do
Silvestre, perto da estância velha da Lagoa, próximo a uma mangueira de pedra,
foi a comitiva atacada por um grupo de 7 homens que teriam, segundo as fontes
jornalísticas, a chefia de Ismail Floriano, irmão de Ismar. Esse grupo visava
tão e somente ao intendente Ávila. Ele recebeu diversos tiros na cabeça,
disparados por revólveres e winchester, de grosso calibre. Não houve tempo para
reação. Houve uns dois feridos, sem muita gravidade.
O
relato da ocorrência destaca que Avila ficou no mesmo local onde estava
sentado, sendo que foi notada a falta de dois revólveres e uma winchester que o
dito intendente costumava carregar em suas andanças.
A
ordem era para disparar contra o Dr.º Otávio d’ Àvila, o resto da comitiva foi
preservado. Não restava nenhuma dúvida de que era um ato de vingança.
As
autoridades locais procederam as diligências iniciais, mas nenhum infrator foi
preso, pois boa parte do grupo escondeu-se nos matos da costa do rio Uruguai e
depois fugou para a Argentina. Somente em 1923, um dos componentes do grupo foi
preso em Alvear, ARG, e repatriado para o Brasil. Aqui, confessou tudo dizendo
que outros capangas foram contratados para assassinar ao Dr. Ávila. Um dos
mandantes, talvez o principal, Ismail Floriano, chegou a ficar preso em Porto
Alegre, foi julgado e absolvido.
A
mãe de Ávila, dona Faustina teria contratado os melhores advogados para fazer justiça
pela morte do filho. Inclusive, entre esses advogados estava o famoso Dr.º
Getúlio Dorneles Vargas. Eram pessoas influentes e de posses. Os Floriano
também.
Após
esse incidente, pouco depois falece o patriarca da família, Ismael Floriano. Os
demais filhos saem de Itaqui. A fortuna da família começa a ser dilapidada.
Ódios,
rancores e ressentimentos povoavam aquele ambiente histórico. As primeiras
décadas da República, em Itaqui, foram marcadas por intensos conflitos. Vinganças,
confrontos, assassinatos encomendados, caudilhos ditando comportamentos e os
problemas sendo resolvidos a bala.
Esse
foi um dos casos. Se olharmos para os romances do norte/nordeste, dos caudilhos
e coronéis que mandavam e desmandavam, onde as terras eram sem leis, aqui não
ficou para trás. Neste cenário de faroeste caboclo muitas famílias
desmantelaram-se mercê da discórdia e do autoritarismo.
A
história está para nos ensinar.
Parece,
pelo cenário moderno, que não aprendemos muita coisa.....


