domingo, 5 de novembro de 2017

Rio Ytaqui/Cambaí

RIO YTAQUI/CAMBAÍ
A gênese de nossa história pregressa
Prof.º Paulo Santos 
Retomando: a história de Itaqui está sendo construída a cada dia. Os relatos que nos foram deixados não são suficientes. Boa parte do que conhecemos deve-se à obra do juiz pernambucano, Dr.º Hemetério José Veloso da Silveira. Há pouco tempo atrás, acadêmicos dos cursos de História da região, amparados por seus professores, encetaram, bons trabalhos de pesquisa bibliográfica sobre nossa história. Depois, isso não teve solução de continuidade.
Além disso, os “pesquisadores caseiros” da cidade também se esforçam e trazem a lume novas evidências, ou reconstroem algumas tidas como definitivas, num trabalho suplementar aos dados existentes.
Neste sentido, um dado novo soma-se ao esforço de revitalização do estudo histórico. Sabíamos, por exemplo, de forma quase didática, que Itaqui era uma toponímia indígena (de base guarani) que significa “pedra d água, macia, boa para amolar”, ainda que ocorram outros significados para tal palavra. Supõe-se que nome esteja atrelado à consistência do solo e à exuberância do elemento pedra no território itaquiense. Entretanto, ao se analisar mapas antigos, algumas referências vêm à tona.
Em 1737, em mapa de um jesuíta argentino, onde constava o espaço missioneiro, com reduções, capelas e estâncias, surge um rio fronteiro à La Cruz/Alvear (na época com outro nome) grafado como ITAQI. Esse, acredita-se,  seria o atual arroio Cambai.
Essa informação se encorpou com um novo dado. Recebi no ano de 2008, cópia de um mapa copiado do Arquivo Geral do Vaticano, em cuja descrição consta o período de 1690-1691. Nesse mapa surge, novamente, o rio YTAQUI. Por essa fonte, o nome de nossa cidade já existiria, pelo menos há mais de 300 anos. Essa preciosidade fora-me obsequiada pelo Sr. Fernando Corrêa Rodrigues, da Revista Armazém da Cultura, de São Borja, da qual  era um dos editores. Esta revista realizava belo trabalho na área editorial, com ótima qualidade de impressão, trazendo artigos ligados à história da região. Não sei se tal edição ainda persiste.
Mapa arquivado no Vaticano, data de 1690-1691.Revista Armazém da Cultura/São Borja

Com essa informação, podemos repensar a formatação de nossa história pregressa.
Por suposição, pode-se acreditar que a origem de Itaqui estaria ligada diretamente ao arroio (ou rio) Cambai, antes denominado Itaqi (ou ainda Itaki) ou Ytaqui. Pode-se ainda divagar que os índios guaranis, ambientados ou não ao espaço jesuítico-missioneiro, tivessem seus arranchamentos próximos ao rio em questão.
Por que será que o município tem esse nome? Que outras razões fundamentam esse batismo? Será que a excelência da pedra grês é que deu motivo para batizar o rio de Itaqui ou o rio serviu de motivo para justificar a exuberância desse material por aqui?
Encontramos um registro, em espanhol, referindo-se ao Pueblo de Itaquy, pelos anos de 1759. Esse Povo pertencia às doutrinas jesuíticas da Companhia de Jesus aqui instaladas.
Onde estaria esse Pueblo situado? Será que próximo ao rio Cambai/Ytaqui? Será que esse Povo não seria bem anterior a 1759? Qual a relação dele com o rio? Quando o acampamento de milicianos do Capitão Fabiano Pires de Almeida aqui se instalou, em 1821, foi na barra do Cambai? Quando Andresito Artigas invadiu Itaqui, em 1816, foi pelo rio Cambai. Quando a Flotilha do Alto Uruguai veio em 1866, foi pela área próxima ao Cambai. Então, tem alguma coisa mais naquela área. Não será por ali o começo de tudo? Historiadores e pesquisadores: pronunciem-se!
Aqui era um território eminentemente missioneiro. Por ignorância, ou desconhecimento histórico, algumas pessoas da cidade, com um certo grau de conhecimento, afirmam que Itaqui não é Missões. As evidências são muitas. Para não aceitar tal definição somente por teimosia ou sei lá que motivo. Itaqui é Missões, sim!
Nos registros das paróquias, quando se referiam a Itaqui, em óbitos, nascimentos ou casamentos muitas das pessoas ali envolvidas eram caracterizadas como “naturais das Missões”.
Para se ter uma ideia, um mapa primitivo de La Cruz, que faz parte do inventário daquela redução, com data de 1768, mostra que no interior da área correspondente a Itaqui havia aproximadamente 15 capelas devidamente nomeadas. Estavam localizadas nos campos destinados à estância de La Cruz. Por essa fonte, pode-se crer, então: Itaqui surge a partir de um rio.
Eu até me apropriaria de uns versos do Rubinaldo Kulmann, um dos mnais fecundos compositores de Itaqui, meu saudoso companheiro de enredos carnavalescos,  e me atreveria a dizer, parodiando:
“Eu já não sei se a graça
é rio que passa para ver Itaqui
 ou é o tempo que passou
 e o rio ficou para Itaqui passar”.
Parece que a origem de toda nossa formação está ali naquele pequeno curso d’água, para alguns denominado “rio dos negros”, para outros, sem evidência alguma. Entretanto, era o primitivo rio Itaquy – a gênese de nossa história pregressa.
(Este texto faz parte de nossa obra AGENDA 150, Itaqui/Novigraf, 2008)

domingo, 29 de outubro de 2017

Atanásio José Lopes

ATANÁSIO JOSÉ LOPES
Um furriel de milícias na defesa dos domínios portugueses frente à tentativa de reconquista dos guaranis de Andresito
Prof.º Paulo Santos

Muita gente passa pela rua Atanásio José Lopes, ou talvez até nela more, sem saber quem era a pessoa que recebeu tal homenagem. Pois nome de rua é homenagem. Só o recebe quem prestou algum serviço de relevância ou teve uma vida envolta em atos de bravura, benfeitoria ou desprendimento.
Vejamos então!
Atanásio Lopes nasceu em Santo Antonio da Patrulha, sendo batizado no dia 15 de maio de 1780, filho do Capitão Antonio José Lopes, natural de Évora, Portugal e de dona Helena Eufrásia Pereira (nascida em 3 de junho de 1754, em Rio Grande, RS), da freguesia de Santo Antonio da Patrulha, filha de Manoel Antonio e Mariana de Bittencourt. Seu pai veio de Portugal, fixando-se no Rio Grande e aqui contraindo núpcias. Manoel Antonio de Bittencourt nasceu em 1724, na Ilha Graciosa, Açores, Portugal, filho de Manuel Pereira Bittencourt e Catarina Espíndola.  Mariana de Bittencourt nasceu na mesma Ilha, Açores, filha de Manuel Machado Ribeiro e Teresa de Ataíde de Bittencourt. Os avós paternos eram Antonio Lopes e Mariana de Jesus.
A genealogia de Atanásio José Lopes cruza, em determinado momento, com a minha, segundo os estudos até agora.
Atanásio José Lopes viria a casar com Ana Joaquina da Silveira, filha de Francisco Silveira Peixoto e Ana Maria de Jesus. O pai, natural de Faiol, Açores, Portugal, filho de José Silveira Peixoto e Maria da Conceição. A mãe, natural do mesmo lugar, filha de Antonio Silveira Goulart e Maria Dutra, falecida em 28 de agosto de 1703, em Santo Antonio da Patrulha, Rio Grande do Sul.
Houve desse casal quatro filhos: Atanásio, José, Mariana e Antonia.
Atanásio era um furriel de milícias, cargo intermediário entre cabo e sargento, e comandava uma guarda na barra do Cambai, o lendário rio Itaquy, em 1826. Essa guarda foi colocada no local onde estivera o acampamento dos 150 soldados milicianos comandados pelo Capitão Fabiano Pires de Almeida ali instalada em 1821. Após o registro desse regimento, nenhuma outra informação se tem. Fala-se que após uma grande enchente teriam os soldados migrados para região onde hoje é o centro da cidade. Eu imagino que essa força não ficou muito tempo por aqui. O grosso da tropa voltou para suas bases, deixando uma pequena guarda no seu lugar. Essa era função de Atanásio como comandante dessa guarnição, composta por 12 ou 13 milicianos: fazer a vigilância da fronteira.
Essa guarda, na foz do arroio Cambaí, foi atacada de surpresa por uma força de mais de 2000 combatentes comandados pelo cacique guarani, filho adotivo do General uruguaio José Artigas, o famoso Andresito Guacurari Artigas, justamente no dia 12 de setembro de 1826. Andresito tinha o propósito de reconquistar essas terras para o domínio espanhol e reintegrá-las ao contexto guarani.
Ilustração: cacique Andresito Artigas, cuja tropa aniquilou  a guarda de Atanásio José Lopes

A guarda de Atanásio, diante da superioridade numérica do inimigo bateu-se em retirada, dirigindo-se à estância São João, propriedade da família, distante uns 30 quilômetros. Foram perseguidos pelos invasores e em vez de se entregarem, resolveram resistir, ficando entrincheirados na casa de moradia.
Todo aquele corpo foi dizimado, além de Atanásio e sua esposa, Ana Joaquina. Na hora do combate, segundo relatos, Atanásio trazia no colo uma das filhas, Antônia, que também fora ferida gravemente num dos braços tentando defender o pai. Esta e mais três irmãos sobreviveram, sendo recolhidos pelos índios guaranis e levados para o outro lado do rio Uruguai, sendo acolhidos por eles, não se sabe bem se em Alvear ou La Cruz, vivendo em condições subumanas. Um ano após foram recuperados e trazidos de volta para Itaqui aos cuidados de outros familiares.
O Cônego João Pedro Gay em sua monumental obra sobre as Missões informava sobre Antonia Lopes Loureiro "a qual era muito menina e estava abraçada com seu pai quando a gente de Adnresito o mataram. Ela mesma foi ferida em um braço". (p.827, Revista do Arquivo Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, volume 26).
Todos cresceram e se tornaram pessoas conhecidas na comunidade. Antônia Lopes da Silva, nascida em 14 de maio de 1824, em Santo Antonio da Patrulha, viria a casar-se com Manoel dos Santos Loureiro, o conhecido Coronel Manduca Loureiro, nascido em 1803 na mesma cidade, filho do Cel. Joaquim dos Santos Loureiro e Maria Eufrásia Lopes, tios do casal.

Atanásio José Lopes, Antonia Lopes Loureiro e Manduca Loureiro viraram nomes de ruas. O sacrifício do bravo furriel é reverenciado pela memória itaquiense.
Coronel Manduca Loureiro - foto do blog loureirogenea - esposo da filha de Atanásio José Lopes

Dorval Peres

DORVAL PERES
Um combatente à margem dos memoriais
Prof.º Paulo Santos

É próprio dos historiadores reverenciarem personagens ligadas aos grandes fatos, revestidos de postos, lauréis e glórias.
Os humildes.....há!...esses ficam relegados ao esquecimento e à revelia, poucas vezes sobrevivem na memória alimentada pela tradição oral. Neste espaço pretendemos resgatar para a historiografia itaquiense, a memória de um combatente, simples, humilde, porém investido de uma riqueza existencial de fazer inveja a muito ser bem dotado intelectualmente.
Este texto-depoimento eu o fiz há muito tempo atrás, quando preparava material ao livro do artista itaquiense, Jorge Vômero. Resolvi entrevistar, então, a DORVAL PERES. De acordo com sua memória, privilegiada, teria 99 anos, na época – algo extraordinário! Fomos visitá-lo e tentaremos transcrever informações que foram possíveis coletar. Após algum tempo, nosso entrevistado faleceu.
Dorval Peres nasceu na Bela Uníón. Seus pais eram Joana Manvaira Peres e Manoel Peres. Nunca frequentou escola alguma, entretanto, era dotado de um conhecimento de vida muito aguçado. Seu pai foi um veterano da Revolução de 1893, a Federalista. O sobrenome Peres é de procedência uruguaia, pois seu avô, Mariano Peres, teria vindo da República Oriental do Uruguai, fixando-se nessa região.
Dorval contava que participou de combates em revoluções no período de 1923, 1924 e 1936, questões relativas à troca de governos e o consequente enfrentamento das diferentes forças.
Percebia-se no referido combatente uma fidelidade ferrenha aos ideais por que lutava. Continuava sendo um chimango; mantinha, na ocasião, guardados, como relíquias, dois lenços brancos – símbolo dos chimangos. Em 1923 foi para a revolução no lugar de seu pai, e daí em diante sempre esteve atrelado a combates e refregas.
Algumas informações transitavam em sua mente um pouco difusas, no entanto ainda guardavam um pouco de nexo. Salientava que a atuação guerreira esteve situada à fronteira, visto que sua brigada sediava-se em Livramento.
Lembrava muito bem de Osvaldo Aranha que provavelmente teria sido um de seus comandantes quando das brigas de fronteira, dado ao seu caráter de legalista. Conheceu e lutou ao lado do famoso General Flores da Cunha, que por sinal, devotava fidelidade.
Contou-nos uma passagem altamente curiosa e sentimental ocorrida com Flores da Cunha quando este era presidente do Estado. Uma senhora foi procurá-lo para que intecerdesse, por ela, numa questão relativa à prisão de seu filho. Essa senhora solicitava que Flores da Cunha providenciasse a libertação do moço. O referido General perguntou se a humilde mãe não teria um esposo que lutasse por essa causa. Rápido teve a resposta:
“- Quando o terneiro está atado, General, quem berra é a vaca!”, respondeu a intrépida mãe.
Flores da Cunha admirou-se da resposta franca e fulminante e, em vista disso, atendeu ao pedido. Nunca uma mulher tinha lhe dado uma resposta tão firme, franca e profunda. Mandou soltar o filho da mesma e contava a todos a “gauchada da senhora”, fato esse recolhido por Dorval.
Falava dos combates que participou. Em Ibirapuitan (Alegrete), muita gente morreu porque as forças contrárias entrincheiraram-se numa mangueira de pedra. No combate de Vista Alegre, também no mesmo município, na divisa com Rosário, perderam-se muitos chimangos, pois os revolucionários situaram-se atrás de um serro.
Lembra de uma frase do Drº. Roque Degrazia quando do sítio de Itaqui, em 1923: “– Faz cinco dias que estamos sitiados. Estamos comendo as vacas dos leiteiros. O que vamos fazer?”
Sua memória guarda uma décima de 1924, na Revolta do Prestes:
“No dia 24 de julho
foi uma noite amargurada
gritaram: viva a revolta!
às quatro da madrugada”.
Pouco tempo depois, viria a falecer. Ficou, infelizmente, à margem dos memoriais.


Nota do autor: Seus descendentes poderiam ajudar-nos com mais informações e fotos do mesmo. ok?

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

seção #itaquijafoi!

Seção #itaquijafoi!
Reminiscências de um passado próximo que não passou!
Prof.º Paulo Santos

Um dia, atento, ouvia o que meus colegas de uma escola municipal conversavam numa pausa. Não eram coisas do presente. Não eram modernidades. Eram coisas do passado. Não um passado muito distante, mas próximo. Lembravam-se de situações corriqueiras, singelas, lúdicas e agradáveis de um Itaqui que não existe mais.
Apenas ouvia, entremeando algumas dúvidas.
Colegas e colegas lembravam do Itaqui passado – uma seção #itaquijafoi!
Pensei: com toda essa tecnologia, os meios de comunicação mais modernos, os produtos mais avançados, as mais altas das tecnologias, e os colegas sentindo falta de coisas singelas. Bregas, diríamos!
Lembravam, por exemplo: da Jaguariense – a primeira grande loja de Itaqui, parecia até um shopping center, tinha de tudo. Da Strassburger, sapatos de tudo que era tipo. Uma saudosista lembrou – que saudade do tempo que eu andava de conga. Depois, meus pais, com melhor situação compraram-me um quichute, depois um kids...coisa chique!
Um outro, brincalhão ao extremo, lembrou que levava os cadernos para a escola num saco de arroz Camil. Que coisa linda!  Como éramos felizes e não sabíamos! Hoje os smartfones de alta tecnologia, só faltam falar. Naqueles tempos os tijolões com teclado imenso, um peso exorbitante e aquele povo todo gritando para ser ouvido no outro lado. Como era romântico! Internet? Isso nem se pensava....
As opções de recreação – poucas! Boate da Breed, da Power. Cuja chiqueza era pedir uma dose de uísque com guaraná ao som do John Travolta! Tempos da brilhantina, ainda que com certas reservas de tempo cronológico. Algumas senhoritas cantavam: “tome um banho de lua, fico branca como a neve..” Celly Campello!
Uns colegas comentavam que seus pais e tios falavam das calças Lee, das bocas-de-sino e uns idiotas pós-modernos puxando um cigarro só para fazer pose.
As lojas hoje de 1,99 não eram novidades para a época. Lembravam do bazar do Jesus, perto da praça...ali tinha de tudo. Coisa linda ir para a praça matriz sentar nos bancos frente à Independência para ver as gurias passar. Depois aquelas intermináveis voltas na praça. O quiosque do Alizio. Os garotos mais liberados podiam pedir samba – cachaça com coca, que maravilha!
Hoje ouvimos Anita, os Mcs da vida, os pagodinhos fajutos, os “sertanojos pós-modernos” e as mulheres gritantes. Naquele tempo, ouvia-se Rod Stuart, Super Tramp, Bee Gees, Fred Mercury, Jovem Guarda, Belchior, Raul Seixas, Zé Ramalho, Roberto e uma centena de grandes cantores e cantoras. As turmas tomavam seus tragos, sim, mas dançavam. Hoje, tomam mais do que tragos e só rebolam. Isso é o que meus colegas comentavam.
Lembravam de pessoas. De pessoas engraçadas. De tipos. Do Pitoco, por exemplo. Do Chita trazendo os chibos da Argentina. Lembrei do Pitoco, o velho, um dia na frente do Unibanco. Queria um cigarro e saiu-se com essa: - me dá um cigarro, que deixei minha carteira de Charme encima da tv a cores! Pode?
Agora, já era! As pessoas estão de cabeça baixa! Por quê? Ora, simples! Estão teclando em seus celulares. Como diria Jonh Lennon – O sonho não acabou! Engana-se ele. Acabou sim!
Acabou a poesia da singeleza. Acabou a simplicidade. A pureza das coisas mais corriqueiras. A magia das sensações mais inusitadas.
Veio o progresso. Com ele veio a mais devastadora das tecnologias – o celular.  Cada um enovelou-se em um mundo próprio. Ninguém anda mais do que dois metros. O mundo está na ponta de uma tecla,
E daí?
A alegria daquele tempo não sai das lembranças. As pessoas estão se dando conta de que o presente não está substituindo aquele passado lindo.  E aí lembro de um verso do Raul, para terminar essa seção #itaquijafoi!;
“- Para o mundo que eu quero descer!”


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Dona Donana Arques da Luz

DONA DONANA ARQUES DA LUZ
A apossada que caçava feras e influenciou na emancipação de Itaqui
Prof.º Paulo Santos
Transcrevo uma matéria bastante singular sobre a formação inicial de Itaqui e de uma personagem a qual a história nada registra. É função do pesquisador duvidar de tudo, conferir, medir, confrontar, testar e se posicionar. Assim, acho pouco provável que tal relato tenha algum foro de veracidade. Até prova em contrário, em história tudo é possível. Na íntegra, temos a matéria reproduzida e nossos comentários após:
“Contou-me um amigo que trabalhou na Prefeitura, setor de contabilidade, em 1955,após ter dado baixo do quartel. Filho de São Vicente do Sul, nas folgas, meu amigo passou a examinar os papéis da inauguração da cidade de Itaqui (1). Onde falava da apossada (2), quer referia-se a dona Donana Arques da Luz.
Ela invadiu em 1835 o território itaquiense pra caçar feras, fazer charques(3).
Donana deixava o navio (4) na costa do rio Uruguai e vinha entrando com um pequeno grupo de pessoas, formado por ela, o marido e os empregados. Muito rica e inteligente, dona Donana trazia ouro e dava aos bugres (5), em troca eles caçavam para ela.
Carregava o navio grande, ia e vinha até Itaqui. Assim funcionou até a Guerra dos Farrapos, onde perdeu o marido e os peões. Depois desta perda, ela só retornou a Itaqui quando o Brasil tinha liberado as divisas Brasil e Argentina, no dia 6 de dezembro de 1858 (6).
Quando Itaqui foi emancipada, a pedido de Donana Arques da Luz (7), em homenagem ao local onde nasceu na França, esta terra passou a denominar-se São Patrício.
Fizeram as vontades dela, que viveu caçando 23 anos na costa do rio ao Torrion (8), onde tinha casebre feito com pau ferro (9).
Em 1858 (10), ela deixou muito ouro enterrado por aí.
De Itaqui, Donana saiu atropelada e sem marido. “O amigo me emprestou o livro pra copiar este texto em 1965.”
Matéria publicada no Jornal Nossa Época, de Itaqui, RS, edição do dia 6 de dezembro de 2003, por ocasião do aniversário do município, assinada pelo leitor  José Viário, morador na rua Luizinha Aranha, 2337.
Algumas considerações se impõem:
(1)   Nunca soube que havia papéis exclusivos sobre a inauguração da cidade, no caso o termo correto seria Vila. Esses papéis, acredita-se, seriam do processo de emancipação;
(2)   Tampouco tinha conhecimento dessa pessoa como “apossada”. Tomaria posse de quê? Pelo que se percebe, ela vinha caçar;
(3)   Ela teria invadido Itaqui no ano que inicia a Revolução Farroupilha para caçar feras e fazer charque. O charque sempre, desde a formação do nosso estado, foi exclusividade da carne bovina que existia em grande quantidade e fazia parte da alimentação das pessoas daquele período. Charque de carne de feras!? Isso é uma novidade sem par. Além do mais, em 1835 não se tem notícia de que nosso território tivesse muitas feras;
(4)   Deixava o “navio”. Na verdade devia ser algum barco de grande calado, uma barcaça, que não dava vau para atracar, precisando ficar no meio do rio;
(5)   O fato dela trazer ouro e dar aos bugres, isso é de uma sandice inimaginável. Primeiro porque nesse período não havia bugres em Itaqui. Havia alguns remanescentes dos guaranis cristianizados espalhados entre La Cruz, Yapeju, Santo Tomé e São Borja e alguns charruas pelo lado do Uruguai, que eventualmente pudessem transitar pelo território, mas bugres, não! Além do mais, os índios não aculturados não se prestavam para esse tipo de troca: feras por ouro;
(6)   O dia citado é da emancipação de Itaqui. Não há qualquer informação de que as divisas do Brasil e Argentina estavam fechadas nesse período;
(7)   Donana teria pedido para emancipar Itaqui, quando se sabe que tal obra é do Juiz Hemetério José Velloso da Silveira. O nome Donana Arques da Luz não parece proceder da França. O nome de São Patrício ainda não se sabe bem quais suas justificativas para implantação aqui. Ainda precisamos de mais dados, porém acho improvável ser apenas autoria dessa senhora tal proposição;
(8)   Esta costa do “Torrion”, sinceramente não consigo divisar tal localidade. Confesso que gostaria de saber;
(9)   O texto fala que nesta costa ela tinha “casebre de pau ferro.” Mas como? A narrativa fala que ela era muito rica! Uma senhora de muito ouro, muito rica, vivendo num casebre?!
(10)      Esse fato dela deixar muito ouro enterrado, isso deixamos para o plano do folclore, do fantástico e do imaginário que são os elementos que alimentam os registros do passado desconhecido.
(11) Não teve referência alguma, ao longo de nossa pesquisa, ao nome dessa senhora como recebedora de terra .
Ainda que tenha todas essas ressalvas, este texto é interessante. Tem informações possíveis e parece repleto de confusões e distorções. A pesquisa histórica ajuda a reorganizar dados e colocar o trem da história dentro do seu trilho correto. Mesmo que 90% dessa narrativa seja inverossímil, os 10 que sobram dão pano para manga a interessantes divagações. Esta personagem nunca encontrei qualquer referência, nunca!
Junto com a cronologia dos fatos e personalidades, tem-se o lado pitoresco da história. Relatos inusitados e curiosidades. Isso tudo marcado pelos relógios solares dos missioneiros do Rincão da Cruz, hoje investigados pelos povoeiros modernos. É a história!

domingo, 8 de outubro de 2017

Coronel Felipe Nery de Aguiar

CORONEL FELIPE NERY DE AGUIAR
Primeiro intendente de Itaqui. Líder político-militar da República.





               Prof.º Paulo Santos
A história do Coronel Felipe Nery de Aguiar é riquíssima, entretanto pouco conhecida do grande público. Aliás, tudo o que pertence ao passado fica à margem das lembranças. Isso é material para pesquisadores e curiosos. Às vezes, até a família esquece de seus antepassados, o tempo moderno valoriza o efêmero; o que ficou para trás parece que perde sua validade. Entretanto, resgatar o passado e trazê-lo de uma forma menos saudosista é função de todos. Assim, retomar a figura de Felipe Nery de Aguiar é dar a conhecer uma personagem muito atuante na história antiga de Itaqui, naqueles conturbados tempos republicanos.
Existem muitos dados sobre Felipe Nery de Aguiar, alguns faltando exatidão. Há relato de que Felipe teria nascido na Fazenda Santa Esperança, localizada a poucas léguas de Recreio (Maçambará), na Sesmaria Bittencourt. Existem, nas fontes, três datas de nascimento: a 1.ª – 26 de maio de 1853; a 2.ª – 7 de março de 1845. Uma terceira: Há o batizado de Felipe Pinto de Aguiar (sem o Nery), em 30 de outubro de 1842, na Catedral de Sam Antonio de Padua, Concórdia, província de Entre Rios, Argentina. Aparece o nome correto de seu pai, Braz Pinto de Aguiar. Nem se sabe por que existe esta disparidade de informações. Por que teria sido batizado na Argentina se teria nascido em Itaqui ou Santa Maria? Outros relatos dizem que Felipe Nery teria vindo de Santa Maria, terra de seus pais.
Era filho de Braz Pinto de Aguiar e Maria Josepha Lopes de Aguiar.
Os avôs paternos eram o Capitão de Milícias, Baltazar Pinto de Aguiar, natural da Bahia, e Luiza Francisca Cabral, de Cachoeira, província do Rio Grande do Sul.
Os bisavôs paternos eram Baltazar Antonio Pinto, de Portugal, e Adriana Felícia de Santana, da Bahia, Brasil.
A mãe de Felipe, Maria Josepha Lopes, era filha de José Lopes de Paula (irmão de Atanásio José Lopes) e Maria Antonia Bittencourt (prima-irmã de José Lopes de Paula), originários de Santa Maria da Boca do Monte. A avó paterna, mãe de Braz, era filha de Antonio Cabral, de Cachoeira e Eulália Maria do Espírito Santo, de Viamão.
 A família de Felipe Nery veio de Santa Maria quando a Revolução Farroupilha estava destruindo as famílias e propriedades, principalmente de quem era monarquista (no caso do avô de Felipe) ou até mesmo republicano. O bisavô de Felipe Nery, O Juiz de Paz, Capitão de Milícias Baltazar Pinto de Aguiar, era inimigo ferrenho do líder revolucionário Bento Gonçalves, havendo correspondências que se referem a isso. O referido Juiz de Paz, radicado na localidade de Pau Fincado, arregimentava forças para lutar contra os rebeldes republicanos. Naquele período, Baltazar Pinto de Aguiar era aliado de Bento Manuel.
Felipe Nery de Aguiar pertenceu às unidades do Exército brasileiro como fez parte dos efetivos da Guarda Nacional, como Capitão Honorário.
Em 10 de janeiro de 1879 prestou juramento como vereador suplente. Em 1881 recebia diploma de vereador efetivo. Fez parte dos Clubes Abolicionista e Republicano. Exerceu o cargo provisório de delegado de Polícia no período de 1890. Foi também Juiz de Paz, em 1889. Estava presente na sessão da Câmara de Itaqui que aderiu à República, em 18 de novembro de 1889.
Como Intendente, o Coronel Felipe dedicou especial atenção à Praça Central, que na época recebeu o nome de Marechal Deodoro, criando jardins sob a supervisão de moças da sociedade itaquiense. Criou mais uma aula pública para meninos, nomeia professor, cria o 1.º Regulamento para as Escolas Municipais, regula os contratos dos passos municipais, solicita demarcação dos limites do Município e das estradas gerais de Itaqui, assinou contratos para iluminação pública dos lampiões de querosene, contrata o primeiro advogado para a Intendência, além de limpeza de sangas e ruas, serviços básicos daquele período.
Em 1895, tempo do Cel. Felipe de Aguiar, a Prefeitura, denominada de Intendência possuía 8 servidores e funcionava das 9 às 15 horas.
Embora não se conheça com exatidão a carreira militar de Felipe Nery, encontramos na Ordens do Dia, do Conde D’Eu, alguns dados, assim como dados do Diário Oficial da União, por exemplo:
Em 14 de julho de 1869 é promovido de Alferes Secretário para Tenente Secretário, conforme Ordem do Dia N.º 27, do Quartel General de Pirayu, no Paraguai;
Em 01 de janeiro de 1870 é promovido de Tenente para Capitão, através da Ordem do Dia N.º 42, do Quartel General Curuguaty, no teatro da Guerra do Paraguai;
Em 21 de janeiro de 1870, o Tenente Fellipe Nery de Aguiar, do 11.º Corpo de Cavalaria, foi designado para assistente de deputado do quartel-mestre junto ao comando da 4.ª Brigada da mesma arma, através da Ordem do Dia N.º 47, do Quartel General da Vila do Rosário;
Em 1880, promovido a Major Ajudante da Guarda Nacional da comarca de Itaqui, RS;
Em 29 de setembro de 1894, através de decreto do Ministério da Guerra, publicado no Diário Oficial da União, promovido de Tenente-Coronel a Coronel, pelos relevantes serviços no estado do Rio Grande do Sul durante a Revolta Federalista.
Foi nomeado pelo presidente da província, como primeiro intendente de Itaqui, prestando compromisso em 1.º de novembro de 1892. Neste mesmo ano foi promulgada, em seu governo, a 1.ª Lei Orgânica do Município. Em 1896 é eleito para seu segundo mandato, não podendo concluí-lo devido a seu falecimento em 1900.
Em 13 de março de 1892 participa junto com outras lideranças políticas e militares de importante reunião em Caceros, província de Corrientes(Argentina), que decidiu por fazer a revolução com o objetivo de restaurar a ordem, em virtude dos protestos e luta armada organizados pelo Partido Federalista, cujo líder Silveira Martins pregava contra a política de Júlio de Castilhos. Eram as tratativas que originaram a Revolução Federalista com repercussão em toda a província do Rio Grande do Sul, com combates em Itaqui. O Coronel Felipe estava entre os organizadores desta contrarrevolução.
O Coronel Felipe Nery de Aguiar é chamado para comandar a 6.ª Brigada subordinada à Divisão do Norte, sob o comando de Pinheiro Machado. O Intendente Felipe Nery pede licença de seis meses para se integrar a essa força, havendo notícias de combates onde o Cel. Felipe de Aguiar é elogiado.
Comprovadamente participou da Guerra do Paraguai, recebendo condecoração em virtude disso. Em 26 de setembro de 1893 ocorreu um combate entre as forças governistas, comandadas pelo Tenente-coronel Felipe de Aguiar contra os revolucionários de Gomercindo Saraiva, em Itaqui. As forças legais foram derrotadas. Felipe Nery de Aguiar reorganizou um contingente das forças derrotadas dando-lhe o nome de “Esquadrão Itaquiense”. Havia na cidade o 11.º Corpo Provisório sob o comando do Tenente-coronel Aureliano Pinto Barbosa.
Em Itaqui, casou com Cândida Lopes de Aguiar, filha de Simeão Estelita Lopes e Maria Teodora Lopes, de Santa Maria. Tiveram uma única filha: Felicidade, que ao casar com o escrivão Maurílio Xavier Caldeira, passou a assinar-se Felicidade de Aguiar Caldeira. Felicidade e Maurílio tiveram como filhos: Elisa, Hilda, Alda, Otília e Felipe Nery de Aguiar, falecido precocemente aos 20 anos.
Da filha Elisa casada com Paschoal Degrazia nasceu, entre outros, o popular Seu Roquinho, proprietário de lotérica, esposo de Dilema Dellamora Degrazia, muito querido pela comunidade. Antes do seu falecimento, conseguimos falar com o mesmo a cerca de seu bisavô ilustre. Dizia-me ele que pouca coisa sabia do mesmo. A família não costumava preservar a história passada. Além disso, também falecida, Dona Hilda Degrazia, bisneta de Felipe, moradora na rua Independência, com quem tivemos a oportunidade de conversar em vida. Ainda vive outra bisneta, Dona Gilda Degrazia Saad, viúva do saudoso Dr.º Chaphick Saad.
O Coronel Felipe Nery de Aguiar deve ter granjeado a simpatia dos órgãos vivos do município tanto que recebeu após sua morte, várias homenagens como, por exemplo: uma rua de sentido leste/oeste com o seu nome; o batismo da Escola Isolada Coronel Felipe de Aguiar, em 1953, no Curuçu e a homenagem com o nome da Escola Estadual Felipe Nery de Aguiar, em 1963, próxima ao centro da cidade, cuja primeira diretora, professora Gilda Caldeira Degrazia, era sua bisneta.
Uma de suas bisnetas, já falecida, contou-nos um dia que a família guardava como relíquia uma espada do Coronel Felipe Nery de Aguiar, que teria usado na Guerra do Paraguai.
Este contava aos seus descendentes que em determinado período, num momento de descontração entre as peleias, ele teria desembainhado a espada e tirado num único golpe o quepe de um de seus soldados, apenas para descontrair. Contava essa história e costumava rir muito. Afinal, a guerra é dura e não dava tempo para brincadeiras. A família recolheu esse depoimento e guardava com carinho a respectiva espada, que na época a referida bisneta manifestou a intenção de doá-la ao município desde que houvesse uma garantia da guarda e do uso adequado de tamanha relíquia. Não houve interesse do poder público para receber tal relíquia.
O pai de Felipe Nery, o também militar Braz Pinto de Aguiar era filho do Tenente de Milícias, Baltazar Pinto de Aguiar. Baltazar era, por informações orais familiares, irmão de meu tetravô paterno, Ignácio Pinto de Aguiar. Os relatos indicam que Baltazar eventualmente vinha até Itaqui e procurava seu irmão. Ignácio, por ocasião de seu testamento, nomeia o sobrinho-neto Felipe Nery de Aguiar como seu testamenteiro em 1883, no Rincão da Árvore, vindo a falecer em 1886. Por outro lado, o Coronel Felipe Nery de Aguiar era primo-irmão de meu outro trisavô paterno Augusto Silveira Dutra.
O Coronel Felipe Nery de Aguiar faleceu em Itaqui, dia 5 de janeiro de 1900, de congestão cerebral, numa sexta-feira, ocorrendo os funerais no sábado, às 9h da manhã, morte atestada pelo Dr.º Afonso Escobar.
Itaqui precisa conhecer mais sobre essa figura de singular atuação na vida político-histórica de um período de intensas conturbações – o advento da República. Outrossim, a República destituiu a Monarquia e inicia uma nova fase na história do Rincão da Cruz, que literariamente poderíamos denominar como “entre a cruz e a espada”.
Numa conotação estilística, pode-se abstrair que seria a cruz missioneira do pueblo de Itaquy das doutrinas cristãs da Companhia de Jesus e a espada dos republicanos, aqui representada por essa relíquia preservada pela família do Coronel Felipe Nery de Aguiar.






sábado, 30 de setembro de 2017

Augusto Silveira Dutra

AUGUSTO SILVEIRA DUTRA

Uma partida de salteadores invadindo fazenda no Passo da Cachoeira! 1897!

Prof.º Paulo Santos

O passado rio-grandense é marcado principalmente por peleias. Seja no enfrentamento dos contrários para defenderem ideologias políticas, seja para fixar territórios, seja para preservar a honra, o patrimônio e, mais ainda, para consubstanciar a natureza guerreira do gaúcho.
Os confrontos para definir as fronteiras, os movimentos para definição de tratados, a Guerra Guaranítica, a Revolução Farroupilha, a Invasão Paraguaia, a Federalista e outros movimentos menores.
Quando não tinham peleias legais, os gaúchos inventavam. Após o cessar das hostilidades da Revolução Federalista, onde chimangos e maragatos se digladiaram numa sanha fratricida, os moradores dessas densas sesmarias ficaram receosos. Bandos armados invadiam fazendas, roubavam e exterminam famílias inteiras.
Uma das fazendas invadidas em Itaqui foi a de meu trisavô paterno, Augusto Silveira Dutra, primo do Coronel Felipe Nery de Aguiar, um dos líderes republicanos defensor da doutrina de Júlio de Castilhos.
Em 1897, a fazenda de Augusto fora atacada por uma partida de salteadores, no local denominado Passo da Cachoeira. Recolhi de um tio-avô este relato. Eram em torno de 12 homens, todos com “a cara pintada de preto e encarnado”, conforme depoimento.
No dia do ataque, Marcino de Aguiar, filho de João Pinto de Aguiar e Maria Joaquina de Medeiros, neto de Ignacio Pinto de Aguiar (meu tetravô paterno) e outro menino, de apelido Bilica, estavam no mato cortando lenha. Uma filha de Delfino, irmão de Augusto, foi até eles e avisou que os bandidos estavam atacando a sede da fazenda.
Eles, então, correram para o local. Ali, o velho Augusto comandava a defesa da casa. No decorrer do episódio, o estancieiro incentivava a Marcino, novo, imaturo e nervoso e mais o outro garoto a reagirem. Ele gritava: “ - Não se entreguemo pra bandido! Não se entreguemo pra bandido!”
No confronto, Augusto foi ferido numa perna e continuou reagindo, pedindo que as mulheres municiassem a arma com que atirava na quadrilha, sentado em uma cadeira. As mulheres também preparavam água fervida para atirar nos invasores. Coisa feia o quadro!
A esposa de Augusto também foi atingida. Os defensores da casa acertaram um dos invasores. O grupo de salteadores, não podendo socorrer ao ferido, resolveu degolá-lo para que, posteriormente, não os delatassem.
Meu bisavô Higino Francisco dos Santos e Tomé Oviedo também estavam na confusão. Informações algumas indicavam que um dos quadrilheiros seria um genro de Augusto, de sobrenome Ramos. Existe, inclusive, um relato policial desse incidente. Augusto Silveira Dutra teria ficado “manco” de uma perna devido ao tiro sofrido.
Foto acervo de família. Período aproximado de 1900 a 1915


Ele fora anteriormente integrante da Guarda Nacional de Itaqui, por volta de 1879, um furriel da 4.ª Cia do Batalhão do Serviço Ativo. Em documentos de 1906, Augusto aparece nomeado como Tenente-Coronel do Estado Maior. Esse, assim, como outros, era uma graduação efêmera, dada ao sabor das refregas e com interesses imediatos e específicos. É claro que ele não era um oficial de carreira, apenas um título recebido naquele período para chefiar, como oficial, determinado regimento. Seria uma “graduação arrumada”!
Como o clima de tensão e insegurança era frequente naquele período, seu primo, o Coronel Felipe Nery de Aguiar, intendente de Itaqui e líder político dos republicanos, eventualmente autorizava que um soldado da Guarda Municipal fizesse a vigilância da fazenda de Augusto, no Rincão da Cachoeira. Benesses entre parentes!
A reação de Augusto e sua gente impediu que a quadrilha invadisse a propriedade e cometesse as atrocidades que bandos dessa natureza frequentemente cometiam. No meio do entrevero choveram balas de tudo que era calibre, panelas de água fervente, muita munição e gritos de “não se entreguemo pra bandido”!
E não se entregaram mesmo! Esses flashes do passado são singulares.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Itaqui no alvorecer do séc. XX - O guarda-sol assassino!

Itaqui no alvorecer do século XX
O guarda-sol assassino!
Prof.º Paulo Santos
Acionamos a televisão e os telejornais nos bombardeiam com os crimes mais inusitados, hediondos ou curiosos. Ficamos a conjecturar – afinal, isso são coisas de cidade grande. Vivemos logo abaixo do continente. Sim, aqui há também vida inteligente, mas estamos longe das catedrais. Longe das capitais. Estamos longe da efervescência midiática.
Pois ao estarmos longe, o contraditório se instaura.
Será que em Itaqui temos fatos singulares ou próximos das grandes metrópoles, onde a fobia da paz se consolida, onde o frisson do novo e do inexplicável atordoa a mente das gentes?
Pois sim! Aqui ocorreram fenômenos próximos do impensável.
Mexendo na poeira do tempo, um sopro para dissipar a névoa da distância e da clareza do fato, encontramos um achado curiosíssimo sobre o Itaqui antigo. Alvorecer do século XX. Ano: 1911.
foto da área central de Itaqui à época desse fato curioso

Notícia de Itaqui, sabe onde? Lá pelos lados de Alagoas. O jornal  O Gutenberg, em sua edição n.º 188, de 30 de agosto de 1911, dizia que “nas proximidades de uma pequena villa no município de Itaquy” um fato assaz diferenciado ocorreu.
Uma senhora viúva, de nome Arminda Alves, saiu de Santiago do Boqueirão com destino a São Borja, em companhia de um peão, chamado Estevam, de 18 anos.
A dita senhora viajava a negócios. No meio do caminho, numa vila de Itaqui, o rapaz que a acompanhava intentou de atacá-la, tentando feri-la com um enorme facão, exigindo que a mesma lhe entregasse várias libras esterlinas que carregava.
O jornal conta que a viúva defendeu-se como pôde, lutando contra o agressor, mais jovem e com um facão. Uma luta desigual. Todos imaginam o final.
Pois a dita senhora, num momento de defesa contra o jovem assaltante, desferiu-lhe violento golpe na região temporal direita, causando-lhe morte instantânea.
Arminda Alves golpeara o forte e saudável agressor sabe com o quê?
Ora, ninguém acreditaria!
Só em Itaqui para acontecer. Logo aqui, que estamos tão longe das capitais!
A emponchada viúva de libras esterlinas defendeu sua vida heroicamente, desfechando o derradeiro golpe no agressor, com o seu guarda-sol!

Pode? Um século atrás nos presenteia com esse singular relato, no Itaqui republicano do intendente Tito Corrêa Lopes.

Vigário José Coriolano de Sousa Passos

VIGÁRIO JOSÉ CORIOLANO DE SOUSA PASSOS
O patriarca da Família Passos de Itaqui.RS
Esta casa ficava na esquina da Independência com João Dubal Goulart. Acredita-se que após os anos 70 teria sido desativada.


 Prof.º  Paulo Santos

A família Passos, de Itaqui, através de alguns de seus componentes, costumava afirmar que descendia de um padre. Esse conceito parecia um tanto curioso, dado ao fato de não ser permitido aos vigários terem filhos, ainda que na história antiga do Rio Grande do Sul ocorressem casos onde os sacerdotes se envolviam em relacionamentos, advindo daí filhos, alguns reconhecidos, outros, não. No entanto, em Itaqui, os dados pesquisados dão sustentação a essa verdade, amparados ainda pela versão oral.
Inicialmente, há que se considerar que Itaqui, por volta de 1850, período onde inicia a história do referido religioso, era ainda uma freguesia pertencente a São Borja, o primeiro dos Sete Povos das Missões, no segundo ciclo missioneiro. Sobre esse ambiente inicial, convém citar o que o pesquisador, padre RUBBERT, expõe:

Aos poucos, junto ao rio Uruguai, num pequeno elevado, surgiu a povoação chamada Itaqui, que custou a se desenvolver. Não obstante, cedo se tornou paróquia por lei provincial de 23 de dezembro de 1837, tendo como padroeiro S. Patrício. A aprovação canônica demorou alguns anos, pois só a 9/3/1838 foi nomeado pároco o Pe. Marcelino Lopes Falcão. A 5/1/1839 esteve em Itaqui em visita canônica o Pe. Fidêncio José Ortiz da Silva. Que achou a povoação insignificante com um pequeno templo feito com esmolas dos fiéis, carente de alfaias. A população da freguesia era de 2.500 almas. Crismou 720 pessoas.

Pois nessa “insignificante povoação” veio, mais tarde, de São Paulo, o nosso primeiro padre nomeado. Muitas fontes foram utilizadas para que tal pesquisa tivesse consistência e veracidade.
José Coriolano de Sousa Passos, o padre em questão, nasceu em 22 de abril de 1815, na freguesia de Santa Ana da Laguna, província de Santa Catarina. Era filho do alferes Manuel de Sousa Passos Ribeiro e de Matilde Rodrigues de Oliveira. Seu pai era de Santa Catarina, e a mãe, de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul.
Seus avós eram Manuel de Sousa Passos Ribeiro e Catarina Gonçalves Ribeiro. Seus bisavós eram Manuel Gonçalves Ribeiro, da freguesia de São Mateus do Bunheiro, distrito de Aveiro, situado entre Coimbra e o Porto, em Portugal, casado com Maria dos Passos, natural de Paranaguá, falecida antes de 1727. O bisavô veio de Portugal, chegando ao Rio de Janeiro, dali para Santa Catarina.
Coriolano foi ordenado presbítero a 3 de maio de 1841, em São Paulo, por Dom Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, Bispo daquela província.
Em 28 de agosto de 1841 foi nomeado padre coadjutor de Desterro, uma localidade de Santa Catarina. Já em 10 de maio de 1842 era designado como coadjutor de outra freguesia, São José, na mesma província. Em 2 de março de 1844, nomeado pároco da mesma paróquia. No ano seguinte vem para a província do Rio Grande do Sul.
A primeira localidade onde o distinto religioso foi prestar seus serviços foi a paróquia de São Francisco de Borja, nomeado pároco e vigário da referida Vara em 01 de abril de 1845.
Desta povoação missioneira, o mesmo foi designado para a freguesia de São Patrício de Itaqui, então como nomeado em 18 de julho de 1850. Seria, de fato, o 1.º padre e o 1.º vigário da Vara. Os relatos canônicos indicam que Coriolano era zeloso do culto divino e dedicou-se à construção da matriz da Villa. Entretanto, diante de denúncias que acreditam os pesquisadores serem devidas ao fato de que o vigário teria feito inúmeros batismos de estrangeiros, principalmente de Alvear, Argentina, o mesmo chegou a ser suspenso em 1856. Com relação a esse fato, há que se considerar o que encontramos em FREDERICO PALMA (1993):

Fue preocupación de los hombres de gobierno, la falta de sacerdotes que atendiesen esa amplia zona de costa Correntina sobre El rio Uruguai. Los departamentos de Santo Tomé y La Cruz – decia El gobernador Balciene em sua mensaje de 1870 – hacia mucho tiempo que reclamaban um pastor espiritual sin poder conseguir a causa de la enorme distancia a que se encuentran aquellos pueblos. Uma de la razones más fundamentales que El gobierno tênia para empeñarse em proveer aquellos curatos era la de que los niños nacideos alli se llevaban a bautizar em el Brasil y eram inscriptos em los libros de parroquiales com súbditos de aquel país.

O padre José Coriolano batizava as crianças argentinas porque não havia quem o fizesse no lado de lá. Isso não era permitido, portanto a denúncia. No entanto, há que destacar que os argentinos reconheciam a boa vontade do referido sacerdote, pois o mesmo Palma destaca que “...estuvo por entonces atendido em lo espiritual por el presbítero José Coriolano de Souza Passos, vicário de la parroquia de San Patrício de Itaqui (Brasil)”
Em 28 de outubro de 1859 era nomeado Pároco Colado. A confirmação desse cargo deu-se em 10 de abril de 1860, pelo Bispo Dom Sebastião Laranjeira. No dia seguinte recebeu a Colação.
No dia 28 de agosto de 186, Itaqui recebe a visita do Bispo, Dom Sebastião Dias Laranjeira. Sobre o referido sacerdote, o Bispo, autoridade maior da província, assim se referia:
“...embora não seja de grandes conhecimentos, exerce o ministério com aceitação e aproveitamento dos fiéis, gozando naquela paróquia, por sua moralidade e severos costumes de respeito e estima dos povos, como tive ocasião de testemunhar durante os dias que aí me demorei em Visita Pastoral.”

Dom Sebastião achou o arquivo da paróquia em ordem, partindo bem impressionado do pároco e do lugar. Quando sua Eminência aqui chegou, Coriolano já estava há 14 anos. O Bispo a tudo examinou, demorando-se alguns dias em Itaqui. Ainda em São Borja, o padre Passos já recebera elogios do padre visitador Fidêncio, no Natal de 1848, referindo-se a ele como: “Sacerdote de exemplar conduta, pronto no cumprimento de seus deveres e geralmente estimado de seus fregueses.” Também lá esteve empenhado na construção de uma nova matriz para a igreja do povo.
Em Itaqui, documentos de 1865, época da invasão paraguaia, como atas de eleições, de alistamento eleitoral, dão conta de que José Coriolano teria 52 anos de idade, tendo, dessa forma, nascido em 1813. Não se sabia de onde era natural, nem tampouco sua filiação. Pressupunha-se fosse originário de São Paulo pelas pistas encontradas na pesquisa. Os familiares atuais indicavam de que o mesmo era oriundo do referido estado. Os dados confirmaram esses indícios.
As primeiras evidências da participação de Coriolano, em Itaqui, datam, por exemplo, de 11 de março de 1855, quando o mesmo era responsável pelo registro das terras da Villa de São Patrício. Durante muito tempo, a Igreja era encarregada do Registro Paroquial, onde os proprietários eram obrigados a registrar suas sesmarias, no que revertia em tributos para a ordem religiosa.
Já em 1853 há documentos que atestam ser José Coriolano um dos que defendia a instalação de uma Mesa de Rendas para Itaqui, uma briga que se consolidou com o trabalho do juiz Hemetério José Veloso da Silveira, quando em 1857 sugeriu que os habitantes pedissem à Assembléia Provincial a emancipação de Itaqui ao termo de São Borja. Em 1858 foi tal ato aprovado, tendo o colega de Coriolano, o cônego João Pedro Gay, travado uma discussão muito séria com Hemetério, excomungando-o da Igreja. O padre João Pedro Gay era vigário da Paróquia de Santa Ana da Laguna, SC, em 1843. Nessa época, José Coriolano ainda estava por lá.
Há registro da participação do ilustre vigário na Guerra do Paraguai, na função de Capelão, Tenente de Comissão, conforme indica a Ordem do Dia N.º 85, de 30 de novembro de 1865, do Ministério da Guerra. Não se sabe se efetivamente participou da Guerra ou esteve nomeado nesta função, permanecendo por aqui.
Entretanto, quando o Imperador D. Pedro II visitou Itaqui em setembro de 1865, ali estava, colaborando na recepção ao monarca e toda sua comitiva, composta de seus genros, de outros nobres, de militares, além do Marquês de Caxias, que permaneceu no barco no meio do rio Uruguai por se encontrar adoentado. O padre Passos recepcionou D. Pedro II, juntamente com o Venerável Cônego João Pedro Gay, emérito escritor da História da República Jesuítica do Paraguai. Desde o descobrimento do Rio da Prata até nossos dias, anno de 1861, Rio de Janeiro. Dom Pedro II conversou demoradamente com o padre José Coriolano de Sousa Passos.
Mais tarde, vamos encontrar o padre Passos reivindicando ao Governo Imperial o ressarcimento das perdas sofridas com o roubo das alfaias da igreja durante a invasão do exército paraguaio. Um dos vereadores um tempo depois, Luiz Peixoto do Prado, informava em documento de 18 de maio de 1874 o seguinte: “Os ornamentos e livros saqueados de uma casa de comercio para onde o vigario (finado) José Coriolano de Sousa Passos os deixou guardados em sua retirada”.
Com relação ao ressarcimento dos prejuízos, a documentação consultada nada indica que o mesmo tenha tido sucesso, pois bem se sabe que as vilas invadidas não foram indenizadas. Entre tanta gente que batizou, podemos citar, por exemplo: Aureliano Pinto Barbosa, em 14 de junho de 1862. Antes, em 26 de outubro de 1859 pôs os santos óleos em Rufino, filho de meu tetravô paterno, Ignácio Pinto de Aguiar e Fermiana Roza de Lima, apenas para citar dois casos.
Em 10 de fevereiro de 1862 aparece o registro do padre Coriolano como delegado da instrução pública de Itaqui, sendo responsável pela fiscalização das provas e exames dos alunos e demais rotinas da educação naquela época, de moral e conduta rigorosas. Um pouco antes, em janeiro de 1859, o governo municipal havia fechado a escola pública. O padre Passos discute o destino dos materiais da escola, sugerindo que os mesmos fossem guardados na Câmara até que aquela cadeira fosse de novo provida de professor, já que seu primeiro titular, Pedro Antonio de Miranda, não quis ficar na função devido à baixa remuneração.
O reverendo em questão morava em 13 de março de 1868 na rua 7 de setembro, hoje Independência. Segundo o falecido pesquisador e artista plástico, Jorge Vômero, a casa do padre Passos seria no local onde hoje fica a sede da seita Jhorei, esquina da Independência com João Dubal Goulart, informação comprovada pelo Inventário de 1873.
Detalhe da casa do padre, ao lado da Casa Degrazia, no lado esquerdo.

Quando foram escolhidos 7 eleitores para a Paróquia de Itaqui, no dia 3 de fevereiro de 1869, às 9 horas da manhã, na matriz da igreja, José Coriolano de Sousa Passos, o vigário da Villa de São Patrício de Itaqui, recebeu 114 votos, concorrendo com militares mais conhecidos da região, dentre eles o Coronel Antonio Fernandes Lima, que recebeu 121 votos, o mais votado.
O vigário Passos chegou a ser indicado para concorrer para vereador da Villa (denominação pela qual Itaqui era conhecida, pois somente passa à cidade em 1879). Numa dessas eleições, ficou em segundo lugar, no entanto não foi nomeado, como pudemos constatar.
Em pesquisa no Arquivo da Câmara de Vereadores de Itaqui, encontramos a evidência de que o padre José Coriolano de Sousa Passos tinha um filho. No Livro 1876, da Junta Eleitoral, que contém as atas de alistamento consta o seguinte: “Israel Coriolano de Sousa Passos, idade 35 anos, empregado público, filiação: José Coriolano de Sousa Passos. Já havia alguns relatos orais por parte de alguns descendentes da família Passos que confirmavam essa constatação.
Em busca no site de pesquisa genealógica – familysearch.org – dos mórmons, há o seguinte registro: Israel Coriolano de Sousa Passos, batizado em 7 de agosto de 1840, na paróquia de Nossa Senhora de Assunção, São Paulo. Filho de Joze Coriolano de Sousa Passos e Maria Magdalena Machado Bueno.
Portanto, um ano antes de ser ordenado padre, Coriolano tivera um relacionamento com Maria Bueno, vindo a nascer Israel. Pelo que se entende, o padre trouxera esse filho para o Rio Grande. Israel quando aqui chegou tinha 5 anos. Quem será que o cuidava?
As informações sobre Israel são muitas em Itaqui. Israel Coriolano foi secretário interino da Câmara de Vereadores, também chamada de Conselho Municipal, em janeiro de 1865, um pouco antes da invasão paraguaia por parte das tropas de Solano Lopes, comandadas pelo Coronel Estigarribia.
Esse Israel teria nascido entre 1839/1843, conforme alguns registros da Guarda Nacional do qual foi por durante certo tempo membro ativo. Em 25 de agosto de 1880 foi nomeado de Tenente para Capitão, lotado na 3.ª Companhia, Batalhão de Infantaria N.º 5, do serviço ativo da Guarda Nacional de Itaqui.
Itaqui ficou conhecida por ambientar um famoso romance – o da jovem itaquiense Emília Josefina Coimbra de Mello com o Tenente, do Rio de Janeiro, suposto descendente de Vasco da Gama, futuro Almirante da Marinha brasileira, Luís Felipe SALDANHA DA GAMA.
Eles vieram a casar em 28 de janeiro de 1867, em Itaqui, ofício religioso esse celebrado pelo padre José Coriolano de Sousa Passos, na segunda igreja de Itaqui, no beco de São Patrício. O enlace durou apenas oito dias. O Tenente fora chamado para a Guerra do Paraguai, em pleno andamento. Mila, como era conhecida, ficou sozinha, sem notícias do oficial, seu marido.
Nesse intervalo, conta a tradição oral de que fora cortejada por alguns pretendentes da cidade. Entre esses, destacava-se o jovem Israel de Sousa Passos, na época com 27 anos. Entretanto, mais tarde, desiludida do marido, que não retorna da Guerra e nem dá notícias, Mila casa-se com estancieiro de São Tiago do Boqueirão, Antônio José Barcelos, bem mais velho do que ela.
Após esse período, Israel contrai matrimônio com Mercedes de Sousa Passos, cujo nome de batismo era Mercês Luíza, ou ainda Maria das Mercês Gonçalves Belmonte, que era natural de São Paulo. Era filha do Coronel Manoel Luiz de Souza e de Balbina Gonçalves. Entre os filhos que se tem notícia de Mercedes e Israel constam:
1.    Maria da Conceição, nascida em 8 de outubro de 1874;
2.    Pedro de Sousa Passos, nascido em 1871, Major secretário do Estado Maior do 17.º Corpo Provisório de Cavalaria sob o comando do Tenente-Coronel Maximiano Teixeira Coelho, na Revolução de 1893, em Itaqui;
3.    América Barbosa, casada;
4.    Astério de Sousa Passos, nascido em 3 de agosto de 1883, batizado pelo padre Nápoles Massa em 13 de outubro de 1885 e falecido, com 52 anos, em 11 de agosto de 1936, em Itaqui. Astério era casado com Maria da Glória Rosa Passos, que teriam os filhos: um de nome Israel da Rosa Passos, nascido em 1916 e casado com Fany Nunes Ramos, em 2 de janeiro de 199; outro de nome Manoel Bráulio da Rosa Passos, nascido em 1921, casado em 6 de outubro de 1950, com Erci Nunes Ramos – dois irmãos passos com duas irmãs Ramos; Hectelindo e Astério Filho, são outros filhos, além de Irma Passos, nascida em 1918 e falecida em 20 de dezembro de 1933, com 15 anos;
5.    Maria Magdalena, nascida em 27 de maio de 1882 e batizada em 16 de fevereiro de 1883;
6.    Maria Balbina, nascida em 23 de junho de 1885 e batizada em 13 de outubro de 1885, casada na capital federal, Rio de Janeiro, com o Contra-Almirante Agenor Vidal, em 29 de janeiro de 1901;
7.    Alípio, nascido em 1860 e falecido em 11 de junho de 1880.
O Coronel Manoel Luiz de Souza e Balbina Gonçalves, além de Mercedes, eram pais de:
1. Balbina Gonçalves de Sousa (Biquinha), falecida em 14 de fevereiro de 1966, em Itaqui, casou em 29 de junho de 1896, com Luiz Acilino Palmeiro ( nascido em 17 de julho de 1872 e falecido em 26 de outubro de 1962, filho de Amâncio Palmeiro e Lara Palmeiro, bisneto de Floriano Machado Fagundes, o tronco basilar da família Floriano, na fronteira oeste).
2. América Gonçalves de Sousa, esposa do Dr.º Aureliano Barbosa, intendente de Itaqui e deputado estadual.
Com relação a Israel, os documentos da Guarda Nacional indicam que em 1860, com a idade citada de 20 anos, solteiro, padecia de completa surdez. Com 30 anos de idade era Alferes Honorário da GN de Itaqui. Parece que um descendente contemporâneo da família, falecido, sofria do mesmo problema, com dificuldade na audição.
Em 11 de maio de 1872, Israel aparece como testemunha de casamento em Itaqui, quando era pároco interino, Antonio Guido. O interessante é que Israel é citado como testemunha em registros de batismos anteriores, onde José Coriolano, seu pai, era o padre oficiante.
Em 1880, Israel de Sousa Passos era o 3.º suplente de Juiz Municipal de Órfãos de Itaqui. No mesmo ano, 18 de fevereiro, era nomeado 3.º suplente de vereador. No ano de 1882 detinha o posto de delegado de Polícia da cidade. Novamente, em 3 de julho de 1889, sendo presidente da Câmara de Vereadores, o Dr.º Eduardo Fernandes Lima, foi nomeado para comandar, pelo governo do Estado, a força policial de Itaqui.
A esposa de Israel, Mercedes de Sousa Passos, teve seu falecimento publicado pelo Jornal de Itaqui, edição de 30 de maio de 1928, com idade bem avançada. Em algumas fontes, Israel surge como natural de São Paulo (Arquivo da Cúria Diocesana de Uruguaiana, Livro (-B, p.3v, 1885). Em anotações do Cartório de Registros de Imóveis e Especiais, de Arlindo Siqueira Dias, consta que Manoel Luiz de Souza, sendo nesta data (1889), era morador da província de Entre-Rios, na Argentina.
Quanto ao vigário José Coriolano de Sousa Passos sabe-se que o casamento do Tenente Saldanha d Gama com a itaquiense é um de seus últimos registros, conhecidos, como padre. Conforme o historiador Jesus Pahim, o padre Passos teve destacada atuação em Itaqui, pois “O seu envolvimento com a comunidade foi muito grande. Por iniciativa sua, construiu-se a primeira igrejinha de Itaqui. Foi edificada em pedra, com cobertura de capim Santa-Fé.” Seu nome foi importante também no processo de emancipação do município.
Em 17 de abril de 1873, o Bispo do Rio Grande do Sul recebe uma comunicação de Itaqui sobre o falecimento do vigário Passos. O passamento se deu em 14 de outubro do mesmo ano. A correspondência se dirigia desta forma:

BISPADO DE SÃO PEDRO DO RIO GRANDE DO SUL
Palácio Episcopal em Porto Alegre
16 de maio de 1873.
Ilmo. Sr.
Acusando a recepção do officio de VV.SS. com data de 17 do mês findo, em que me dão a infausta notícia do passamento do R.do Vigário dessa Villa p.º José Coriolano de Sousa Passos; cumpre-me declarar-lhes que a brevidade possível será Ella provida de Parocho confirmando entretanto na sua administração o respectivo coadjutor enquanto aí não se apresente o novo Parocho.
Deus guarde a VV.SS.ªs.
(assinatura) Bispo do Rio Grande
AOS PRESIDENTE E DEMAIS MEMBROS DA CÂMARA MUNICIPAL DA VILLA DE ITAQUY

Os relatos desse período são fragmentados, não pudemos conseguir mais dados sobre seu falecimento, pois os arquivos da Prefeitura, Câmara, Paróquia e Bispado nada indicam sobre esse fato.
Em 1873 foi aberto o Inventário do Vigário Passos, hoje no Arquivo Público do Rio Grande do Sul (Autos: 222, Maço: 7, Estante: 114, Cartório de Itaqui- Órfãos e Ausentes – Inventários, Ano: 1873).
Conforme a descrição do referido documento, somente um único herdeiro havia – seu filho Israel Coriolano de Sousa Passos. Consta que não foi feito testamento. Os bens deixados pelo reverendo eram os seguintes, conforme descrição textual do documento pesquisado:
Ø  “Uma morada de casa situada na praça da Matriz desta Villa fasendo esquina com a rua da Igreja, frente ao Oeste com a mesma praça, frente ao Norte com a rua da Igreja, limitando-se pelo Sul com o terrenos do mesmo Inventariado e pelo leste com terrenos de D. Leonarda Canepa, e Evaristo Teixeira do Amaral, tem na frente de Oeste cem palmos, com cinco janellas todas envidraçadas, e um grande portão de ferro; e na frente de Norte cento e cincoenta palmos, trez janellas todas envidraçadas, um grande portão, um grade telheiro todo repartido junto e contíguo a mesma caza, cosinha, e posso de balde, toda a caza é construída de pedra e cal, e um quintal todo cercado de muro de pedra: o que tudo sendo conhecido dos avaliadores. Declararão valor: vinte e seis mi contos de réis, que sai 26:000:000.
Ø  Um terreno contíguo a mesma caza com trezentos e oitenta palmos de frente a Oeste, e trezentos e cincoenta palmos de frente a Leste, limitando-se com a rua do Ipiranga, pelo Norte com a caza ocupada pelo inventariante, todo plantado e lagiado todas as veredas, todo cercado com um muro de pedra de nove palmos de altura que os avaliadores declararão valor: quatro contos de réis, que sai 4:000:000.
Ø  Uma marqueza em bom estado que os avaliadores declararão valor vinte mil reis, que sai 20:000.
Ø  Um sofá de palhinha que os avaliadores declararão valor cincoenta mil réis, que sai a margem 50:000.
Ø  Quatro aparadores (acento de mármore) que os avaliadores declararão valor a cincoenta  e dois mil cada um e todos por dusentos e trinta e dois mil réis, que sai a marge: 232:000.
Ø  Quatro cadeiras de braço, de jacarandá, a vinte mil réis, oitenta mil réis, que sai para – 80:000.
Ø  Dose cadeiras acento de palhinha, madeira de jacarandá novas, por cento e vinte mil réis. 120:000.
Declara o inventariante não ter mais bens a descrever; e com o Medico, Botica, funeral e Missa de sétimo dia despendeu a quantia de um conto e dusentos mil réis. 1:200:000.”
Pela leitura do texto do Inventário, entende-se que a casa do Vigário José Coriolano de Sousa Passos é a mesma que na década de 70 ainda existia, passando mais tarde para a família Palmeiro, sendo seu proprietário o sr. Amâncio Palmeiro, filho de Maria Leopoldina Floriano e João José Fontoura Palmeiro (que fazia parte da primeira Câmara de São Borja e um dos líderes militares da região).
Uma cunhada de Israel Coriolano, Balbina, casou um Palmeiro (Luiz Acilino e tiveram 11 filhos. Possivelmente, é através dessa ligação que se explica a antiga casa do Padre José Coriolano de Sousa Passos pertencer mais tarde a Amâncio Palmeiro.
Casa de Luiz Acilino Palmeiro, casado com uma cunhada do padre Coriolano. Esta casa ainda existe.

O local da localização da mesma e do terreno é o seguinte: Hoje corresponde a todo o terreno da sede da seita Jorhei, que seria a parte da casa, indo até a esquina dos Correios, que corresponderia à parte dos terrenos. Portanto, toda a parte da frente da quadra da Independência, no lado esquerdo, frente à Praça Matriz, pertencia na época ao Padre Passos. Não deixou campos, gado, nem ouro e prata. Os bens relacionados eram singelos. Com certeza, a casa e os terrenos deviam ser concessões que a própria Igreja permitia aos reverendos no exercício do cargo.
Em seu lugar viria o também conhecidíssimo José de Noronha Nápoles Massa. Sobre José Coriolano foi possível reunir um bom conjunto de informações, antes não havidas na cidade: algumas até inéditas.
A comunidade precisava conhecer um pouco mais sobre esse que foi o primeiro padre de Itaqui, sua inserção no processo da identidade civil e religiosa do Rincão da Cruz. Observação: Por envolver, nomes, datas e fatos antigos, pode ser que alguma informação não proceda. Isso é possível. Acréscimos são bem vindos!



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